sábado, 26 de março de 2011

O COUNTRY CLUB

É impressionante o legado deixado pelo prefeito Francisco Escobar, que governou a cidade entre 1909 e 1918. De acordo com a publicação “Illustração Paulista”, de 4 de novembro de 1911 -a mesma que Memória de Poços de Caldas usou para corrigir uma informação divulgada pela prefeitura (confira aqui e aqui)-, “o horto municipal e posto zootechnico, creação do prefeito actual, é um dos benefícios mais valiosos prestados pela administração municipal á Villa de Poços de Caldas. Ocupa quatro hectares de terreno lavrado e está confiado o utilissimo estabelecimento ao Sr. Adalberto Rocha, diplomado pela escola Municipal de Pomologia e Horticultura de S. Paulo. É destinado a systematizar e desenvolver a cultura das arvores fructiferas e manter um viveiro de plantas de arborisação e de essenciais florestas". A foto acima é do Posto Zootechnico, na década de 1920. Observe, à direita, o pequeno lago que ainda existe no local.
  
Continua o "Illustração": "Anexo ao horto fica um posto zootechnico –com uma secção destinada á cultura das forragens, o que muito influirá no progresso da indústria pastoril do município e seus arredores. Servirão esses estabelecimentos uma importante zona, cujos campos se prestam á cultura proveitosa de fructos e á criação de gado, com grande vantagem da proximidade das cidades de São Paulo, Santos e outros mercados consumidores”.
  
Já Mario Mourão, no livro “Poços de Caldas – Synthese Historica e Crenologica”, de 1933, recordava, “entre os principaes actos, de Francisco Escobar que podem ser apontados officialmente, em 22 de outubro de 1910, Adalberto Rocha foi auctorisado a fundar e dirigir um Horto Municipal, fornecendo-lhe a Prefeitura mudas, sementes e instrumentos, e demais material, para a cultura de plantas de ornamento, arvores fructiferas fornecidas gratuitamente aos moradores da cidade, assim como para incrementar a facilidade de acquisição de todas as hortaliças, muito escassa então”.
  
Mais adiante, a mesma obra esclarece: “Quando o Dr. Francisco Salles era Ministro da Fazenda, o Prefeito Escobar obteve delle a auctorização para mandar construir aqui um Posto Zootechnico para selecção de animaes e para exposição permanente de bellos exemplares de raça. Tendo sahido do Ministerio o Dr. Francisco Salles, sem cumprir a promessa, o melhoramento ficou, mas esse gasto extraordinario aggravou bastante as finanças da Prefeitura. O Posto Zootechnico, desde a sua fundação, tem sido um offside. Desvirtuado do seu fim, com cocheiras, com pastos, com uma enorme chácara, a Prefeitura, desde o principio, nunca quis lhe dar um fim utilitário, que teria sido um campo de experiências, ou Patronato de Menores ou chamar para alli uma Congregação Religiosa.
 
Como vemos, elle irá apparecendo successivamente nas diferntes gerações de Prefeitos, sendo que o actual Prefeito Dr. Assis Figueiredo parece ter acertado, dando o ao Country Club, para alli fazer as suas installações sportivas".
  
Mourão faz mais referências: "A 23 de novembro de de 1917, foi o Posto Zootechnico arrendado pelo prazo de 8 annos a Emilio Castelar e Thomaz Martinelli para diversões publicas" e ainda "Rescindindo o contracto com Martinelli & Cia., a 25 de abril de 1918, foi arrendado ao Sr. Joaquim Nunes Tassára, do Rio de Janeiro, o Posto Zootechnico, tendo o arrendatario se obrigado a alli gastar 100 contos de réis para um Prado de Corridas, um campo de football, com archibancadas, tudo para fins sportivos. A 6 de agosto de 1918, Escobar lavrou seu ultimo contracto com Cassio Prado, arrendando-lhe o Horto Municipal”.
  
Mais adiante, Mourão informa, referindo-se a Polycarpo de Magalhães Viotti, prefeito de Poços de Caldas entre 1918 e 1920: “Em 4 de junho de 1919, o Prefeito Viotti rescindiu o contracto do Posto Zootechino com o Dr. Joaquim Nunes Tassára, transferindo-o para a firma Theodoro do Valle & Cia, devendo-se consignar o quanto esse conhecido clubman contribuiu para a vida social de Poços de Caldas”, sendo que em dezembro de 1919 “o Cel. Theodoro do Valle transferiu o contracto do Posto Zootechino a Companhia Melhoramentos” e, por fim, “veio o Dr. José de Paiva Azevedo, cujo primeiro acto foi a 12 de dezembro de 1925, rescindindo o contracto de arrendamento do Horto Municipal com a Companhia Melhoramentos. Nessa epocha, se discutia muito a questão da propaganda da estancia, tendo sido organisada pelo Dr. Mario Mourão, Palmirio d´Andréa e outros a Sociedade de Propaganda de Poços de Caldas, que prestou excellentes serviços, augmentando muito a concorrencia, tendo o Dr. Paiva Azevedo feito a doação do Posto Zootechnico a essa Sociedade”. Paiva Azevedo foi prefeito de Poços de Caldas entre 1925 e 1927. Abaixo, o local na década de 1930, já conhecido como Country Club.
Duas outras curiosidades: em julho de 1921, dois italianos - Giovanni Ruba e e Vasco Cinquini- protagonizaram o primeiro pouso de um avião em Poços de Caldas. O voo, previsto para chegar às 10 da manhã, acabou acontecendo cinco horas depois, e foi testemunhado por centenas de moradores. Recebidos com festa, foram obrigados a passar alguns dias na cidade por conta dos estragos que o avião sofreu na aterrisagem. Já em abril de 1936, outros dois pilotos, desta vez norte-americanos -R. F.Whitehead e C.C. Gil- pousaram em Poços de Caldas. O pouso resultou em capotamento do avião. Ambos eventos aconteceram no campo que havia em frente o Posto Zootechnico -o antigo campo de golf, hoje Parque Municipal.
  
Um século depois, como está o Country Club? Em suma, sentindo o peso do desleixo da administração pública. Para começar, logo na entrada há um portal em mau estado, denotando a pouca manutenção aplicada, no qual se lê numa placa “Secretaria de Obras e Viação” e “Sec. Mun. De Serviços Urbanos”, denominações há muito abandonadas pela adminstração. A atual Secretaria Municipal de Projetos e Obras Públicas, bem como a Secretaria Municipal de Serviços Públicos ocupam espaços ali, o que em tese deveria significar o encontro de um parque primoroso, bem cuidado e mantido, alvenarias em ordem e vegetação impecável. Nada disso. Prevalece a máxima “casa de ferreiro, espeto de pau”: se nem mesmo a placa indicativa foi alvo de atenção, o que dirá o conjunto todo.
Passando a entrada, está o pequeno lago, de muitas histórias, entre elas a foto do então metalúrgico Lula, futuro presidente do Brasil, que passou a lua de mel em Poços de Caldas e passeou de barquinho ali. O cenário é desolador –o que não é incomum em muitos logradouros históricos e turísticos da cidade-, destacando-se por exemplo a  emblemática “favelinha” que serve de moradia aos patos que frequentam o lago (patos, no caso, as aves propriamente ditas).
   
O local foi notícia recentemente, numa daquelas muitas ações midiáticas mirabolantes que as autoridades costumam utilizar. Em 17 de novembro de 2009, o site da prefeitura destacava a informação "Detentos revitalizam casarão do Country Club", quando um grupo de presos participou de um projeto de “recuperação” do antigo Casarão de Eventos que existe no Country Club. A nota destacou ainda que “na ampla varanda, um mural com fotos, depoimentos, informações sobre o projeto e letras de música contava a história de um sonho realizado: a parceria entre a Prefeitura, a PUC Poços e a Subsecretaria de Administração Penitenciária, que, muito mais que trazer beleza ao casarão, trouxe também novo ânimo e novas oportunidades aos presos”. Sob o beneplácito de autoridades municipais e órgãos de defesa do patrimônio histórico, o casarão recebeu uma cor certamente muito diferente da original, atitude incompatível com o interesse preservacionista que deve valer nesses casos.
  
Um ano e meio depois da "obra" e o cenário já é ruim de novo. Na parte inferior do prédio é possível ver que há madeirites fechando janelas; a antiga porta foi pintada de qualquer jeito e, por meio de um vitrô quebrado é possível observar a existência de um depósito de bugigangas como redes, cintos ou mancebos, certamente fruto de apreensões nas sempre rigorosas fiscalizações municipais. Nem mesmo a plaquinha “Richter e Lotuffo Arquitetura e Construções”, empresa que construiu a nova sede do futuro Country Club na década de 1940  resistiu às pinceladas com “tinta à base de terra” ali empregada. Fica uma pergunta no ar: há quanto tempo não acontece um evento nesse Casarão de Eventos?
  
Um volta pelo complexo do Country Club e nova decepção. Se as quadras de tênis e as piscinas recebem manutenção, o mesmo não se pode dizer das sorumbáticas quadras poliesportivas: simplesmente abandonadas, sem marcações, cimento irregular e mato crescendo no concreto. Lembre-se que é o mesmo espaço ocupado por duas secretarias que têm como escopo a manutenção, conservação e limpeza de áreas públicas.
O próprio casarão, que de longe até impressiona, é palco do desprezo de alguns servidores que, ignorando a existência de centenas de vagas para estacionamento dos carros chapa-branca, utilizam-se da varanda do prédio para estacionamento. "Vaguinha coberta" sempre é bom, mas o piso ali vai se perdendo em prol da mordomia de ter o carro sempre fresco. Para comprovar o relaxo, exatamente nessa varanda está uma placa na qual se lê “Conjunto Arquitetônico e Paisagístico do Country Club – tombado pelo município". Se é tombado, quem autoriza estacionar na varanda? E quem fiscaliza essa postura incompatível no mínimo com as boas práticas de preservação do patrimônio? Essa mesma placa levanta uma dúvida, ao afirmar que “No ano de 1951 passa a ser denominado Country Club”, contrariando Francisco Escobar, que já tratara do tema. Mera curiosidade. Como também é curiosa a presença de uma bandeja plástica (talvez um arremedo de comedouro para aves) sobre a proteção da pequena sacada do casarão, que nos anos 1940 abrigava uma placa com os dizeres “Serviço de Chá e Restaurante”, conforme atesta a imagem abaixo.
Há muito mais a se dizer do Country Club: no local onde hoje está a pista de skate havia um Matadouro Municipal. Ou o campo de golf onde hoje é o Parque Municipal, em que até Getúlio Vargas jogou, ou ainda que lá, em 1972, começou o Museu Histórico e Geográfico, funcionando por 24 anos até ser transferido para a Vila Junqueiras. Mas o importante é dizer -e insistir, reiterar, implorar até- que os gestores públicos preservem como se exige o patrimônio histórico de Poços de Caldas.
  
Tarefa árdua. A imprensa publicou em 25/3/2011 a fala do secretário estadual de Meio Ambiente, que diz estar a água da região "muito ruim". Para quem não sabe, 75% do esgotos de Poços de Caldas sequer são tratados. Vão para os rios do jeito que saem das privadas -palavras duras para demonstrar que nem mesmo o bem natural mais precioso que existe, e que deu origem, vida e nome à cidade, está sendo preservado.
  
Nessa ótica, patrimônio histórico vira assunto periférico. Um erro.
  
Clique nas imagens do Memória de Poços de Caldas para ampliá-las.
  

1 comentários:

Clodoaldo Bertozzi disse...

passei aqui pra dar uma conferida na data de construção do Country Club o qual visitei esse feriado e não pude deixar de notar o péssimo estado de conservação...tb aproveitei pra checar a estação ferroviária para verficar se havia algum carro sobre o piso hidráulico...notei tb que as obras ao lado do Posto ao lado já fecharam o leito da ferrovia...abraços

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