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segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

THERMAS ANTONIO CARLOS, 80 ANOS - I

Comemora-se em 2011 os 80 anos de inauguração da Thermas Antonio Carlos. Por isso, Memória de Poços de Caldas publica uma sequência especial sobre o Balneário, com imagens pertencentes ao acervo do Arquivo Público Mineiro e as citações do Dr. Mario Mourão, extraídas do livro "Poços de Caldas - Synthese Historica e Crenologica", publicado em 1933, mesmo ano das imagens.
 
Antes, um esclarecimento, deixado por Aristides de Mello e Souza, em seu "Estudos de Crenologia", de 1936: "Crenotherapia é palavra creada por Landouzy, para de­signar a therapeutica pelas aguas mineraes. Em seguida propoz Lamarque: Crenologia e Crenographia. Derivam-se de crene - fonte. São neologismos que tiveram facil en­trada e aceitação em diversos paizes, entre os quaes o nosso. Em logar de hydrologia medica, diz-se mais simplesmente: crenologia. Com semelhantes bases etymologicas adoptaremos creno­genese -origem das fontes thermaes, donde a expressão- theorias crenogenicas. Balneologia, dos germanicos, comporta significado mais am­plo, abrangendo a hydrotherapia e toda especie de banho". Acompanhe:
  
"O estabelecimento começou a funccionar no dia 16 de Março. A inauguração official foi feita no dia 29 de Março, pelo Sr. Secretario de Agricultura, como representante do Sr. Presidente do Estado e Sr. Chefe do Governo Provisorio.
   
O massiço da sua construcção em rigoroso estylo romano, tem a grandeza das thermas do tempo dos Cesares. Em sua frente, olhando a face do Parque, ella eontempla o vulto sereno do grande mineiro Antonio Carlos, alli esculpido no bronze da estatua de um monumento, que perpetua a gratidão da cidade pelo Grande Presidente, creador da Alliança Liberal, ipso-facto, da Republica Nova.
 
O hall da entrada é grandioso; e, o genio do Eduardo Pederneiras que foi o creador dos deslumbrantes salões do Casino de Poços, ainda poude achar concepção de architectura, nos vitraes e nas arcadas cheias de magestade, que molduram uma das construcções mais bellas, que se póde imaginar. Si os salões do Casino lembram as ogivas das grandes cathedraes, o hall das Thermas tem qualquer similitude com a imponencia daquella torre dos Invalidos, que encima o tumulo de Napoleão. É que uma grandeza e uma sublimidade sempre nos trazem ao espirito as outras concepções do genio humano. E o notavel engenheiro brasileiro Eduardo Pederneiras tem em Poços de Caldas nas Thermas, no Palace Hotel e no Casino, as obras primas do seu principado em architectura.
 

Quem recebe o deslumbramento do hall, póde se encaminhar á direita para a classe distincta dos homens e, á esquerda, para a do sexo feminino.
 
As banheiras são enormes, de porcellana louçada, a unica subs­tancia, que não é atacada pela nossa potente e magestatica agua sul­furosa. Todas as banheiras têm um relogio de parede electrico, accio­nado automaticamente por uma grande engrenagem do regulador central das Thermas, uma campainha, um piso de madeira, uma pol­trona e um calçador.
  
Não existe segunda classe. Ha uma secção mais modesta no preço, a serie B, com banheiras e accessorios iguaes aos serie A, sendo que um banho de 1a. classe custa 4$000 e o da serie B custa 3$000. Um banho especial custa 5$000. Um duplo lance de escadas ou um elevador nos leva para o segundo andar, que contém as grandes applicações hydraulicas.
 
RESUMO DESCRIPTIVO DAS INSTALLAÇÕES DAS THERMAS ANTONIO CARLOS
PRlMEIRO PAVIMENTO
 
Contém 120 banheiras para banhos sulfurosos, destribuidas, em 3 séries: A B e Reservada. A série reservada compõe-se de 4 banheiras destinadas aos doentes de apparencia desagradavel. Certas molestias contagiosas, entre as quaes, a lepra, não são admittidas no Estabele­cimento.
 
As banheiras das séries A e B apresentam identicas commodi­dades. A differença entre uma e outra série consiste simplesmente no mobiliario e nas salas de espera.
  
O vestibulo da série B serve de sala de espera para homens, de um lado e do outro lado, para senhoras. Na série A, as secções mas­culina e feminina têm cada uma sala de espera propria, sendo commum o grande vestibulo oval, que da accesso por elevador ao segundo pa­vimento.
  
Em todas as séries, o compartimento de banhos é dividido em 2 partes, uma para a banheira e outra para o vestiario.
  
O mobiliario de todas as secções do estabelecimento foi cuidado­samente estudado afim de satisfazer inteiramente quanto ao conforto e á elegancia.
  
Existe ainda o deambulatorio, uma banheira de 5 ms. de tamanho com 1 metro e 30 de profundidade para reeducação da marcha.
 
SEGUNDO PAVIMENTO
 
O segundo pavimento contém as secções de duchas para homens e senhoras, a secção de mecanotherapia, a secção de pulverização e de inhalações sufurosas e medicamentosas, o Instituto de Mecanotherapia, a série Especial, a rouparia, a administração, o gabinete do Director. 
  
A série Especial contém apenas 4 banheiras na secção masculina e 4 na série feminina. Ao contrario das banheiras do primeiro pavimento, nas quaes é impossivel a mistura de agua potavel com a agua sulfurosa nas torneiras, as banheiras da série Especial são arranjadas, de modo a poder-se utilisar a agua potavel para certos banhos especiais".
  
Clique nas imagens do Memória de Poços de Caldas para ampliá-las.   


quarta-feira, 24 de agosto de 2011

AS BANHEIRAS DE ANTONIO CARLOS

Depois de ver os filmes de 1927 sobre a visita do Presidente Antonio Carlos a Poços de Caldas, saber que em 1931 foi inaugurada a Thermas com seu nome, constatar que esse patrimônio histórico sobreviveu por 80 anos em condições quase milagrosas a todo tipo de ação técnica ou política, é impossível não se assustar com o destino dado às belíssimas banheiras nesta que promete ser a derradeira reforma do Balneário.
   
Durante recente apresentação a um grupo de arquitetos e interessados, os responsáveis pela obra informaram que as preciosas banheiras seriam substituídas por novas, produzidas em fibra. Não é preciso ser gênio para saber que as "modernas" não durarão 25% do tempo que duraram as originais. E também não é preciso ir longe nas pesquisas para saber que ou se poderia recuperar as banheiras originais, ou, num extremo, mandar reproduzi-las no padrão original. Há outros pontos questionáveis nesse processo de "modernização" da Thermas, como a construção de uma piscina interna não aquecida, conforme apresentado, mas isso é assunto para vereadores, Justiça ou jornalistas de verdade, que andam rareando.
   
Para dar uma amostra do cuidado com a manutenção e a preservação do patrimônio histórico, na mesma apresentação foi informado que as banheiras, "propriedade" da Codemig, a mesma que está "pagando" os R$ 10 milhões dessa obra, seriam enviadas a Belo Horizonte.
   
Mas uma boa fonte desmente a fala. As fotos abaixo mostram em que condições estão armazenadas as peças, junto a um galpão oficial, em local com cerca derrubada, sem a menor segurança, correndo o risco de serem destruídas por vândalos ou mesmo "removidas" pelos amigos do alheio. Precariedade é o termo.
   
Do luxo ao lixo. Não seria de espantar se as banheiras acabarem como cochos de gado em algum sítio da região.
   
Clique nas imagens do Memória de Poços de Caldas para ampliá-las.  
 

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

AS BANHEIRAS DE ANTONIO CARLOS - II

Memória de Poços de Caldas mostrou, em agosto passado, a situação em que se encontravam as históricas banheiras da Thermas Antonio Carlos, depositadas em condições precárias junto a um grande galpão do DME, na represa do Cipó. De acordo com uma autoridade entrevistada na tv, as banheiras estariam "bem guardadas e em local seguro". Cerca derrubada e completa ausência de segurança, além de muitas banheiras em perfeitas condições deixadas ao relento: a isso chamam "bem guardadas".
   
O problema é tão sério que até mesmo uma janela do galpão do DME foi arrancada, conforme se observa abaixo, na última foto.
   
É o retrato do sorumbático destino que a atual "República do Enxofre" dá ao patrimônio histórico de Poços de Caldas: o relógio da Matriz quebrado, o Veú das Noivas em más condições, a Estação Ferroviária servindo de depósito de tranqueiras da secretaria de turismo, o Palacete da Prefeitura sem o respeito que merece, o casarão do Country Club servindo a projetos experimentais de pintura, fontes recebendo cloro... Seria importante a manifestação do Condephact, o conselho responsável pela defesa do patrimônio histórico. Espaço aberto.
   
Clique nas imagens no Memória de Poços de Caldas para ampliá-las.
   
 
 
 

quarta-feira, 16 de maio de 2012

"TEATROS QUE VIRARAM GARAGENS"

Alexandre Garcia, na edição de hoje (16/5) do Bom Dia Brasil:
"Prédios coloniais dão lugar caixotes horríveis
 descaso com o patrimônio público vai além dos prédios antigos. Estátuas, monumentos históricos estão sendo depredados. É um desrespeito e um prejuízo aos cofres públicos que se repetem a toda a hora.
O desabamento do prédio no Rio é apenas uma amostra do que tem acontecido em uma das mais lindas cidades do país. Mas, infelizmente, acontece em toda a parte, das cidades maiores às menores. E não são apenas as estátuas, como bronzes mostrando a cena da independência, com todas as espadas arrancadas, mas também o patrimônio arquitetônico e religioso. Altares e imagens de igrejas centenárias são vendidos, como se Átila e seus hunos tivessem passado por elas.

Edificações históricas, que marcam época nas cidades, estão abandonadas, ruindo; teatros que viraram garagens. Até o poder público se junta à destruição não apenas pela omissão, mas também pela ação, demolindo marcos como antigas estações ferroviárias, pontes do Império, em uma onda burra de suposto desenvolvimento e modernidade.

Prédios coloniais ou da virada do século passado dão lugar caixotes horríveis que enfeiam as nossas cidades. O desrespeito à história do Bola Preta ou a Drummond, em Copacabana, que teve pela oitava vez os óculos arrancados, ou a obra genial de Brecheret que foi sujada de azul personagens das bandeiras, no Ibirapuera, tudo isso expõe a profunda carência dos que fazem isso.

É a única forma de aparecerem ainda que fiquem no anonimato. Muitos podem querer a punição da lei sobre os que estragam estátuas. Mas a punição maior é que isso desnuda suas almas que detestam o belo, o grandioso, expressando suas carências. Precisam de ajuda para viverem em paz com a vida".
A abordagem do jornalista serve muito bem para o que está acontecendo, há tempos, em Poços de Caldas: interesse privado prevalecendo sobre o interesse público e concessões inaceitáveis sendo decididas a pedido daqueles que deveriam ser os defensores da história da cidade.
   
Garcia refere-se até a um ponto específico que nos interessa: o poder público demolindo marcos como antigas estações ferroviárias ou pontes do Império, em uma onda burra de modernidade. Por demolir entenda-se não apenas derrubar, mas o estrago diário, a falta de manutenção permanente, o esquecimento forçado ou não.
  
Uma análise superficial sobre a adoção de banheiras plásticas na Thermas Antonio Carlos indica que a tal "modernização" é um tiro no pé: não há economia que justifique a troca das banheiras por outras de material "contemporâneo". As originais duraram 80 anos, dizem que as novas durarão 15 anos, se "mantidas adequadamente". Duvido que cheguem aos cinco anos. Terminadas as obras no Balneário, haverá festa, cerimônias formais, a imprensa local elogiará, reproduzindo (como sempre) das notas oficiais o "excepcional resultado da obra", os "ganhos para a população" etc. Isso se a reforma terminar no prazo e não houver um "desacordo comercial", tal como se justifica agora a paralisação da reforma do Palace Casino, cujo prazo de 18 meses já dobrou, e anda sem data para conclusão.
  
Teatros que viraram garagem? Temos a história do Polytheama. É fácil, também, ver a rápida deterioração da Estação Mogyana em Poços de Caldas, e convido qualquer um que queira me acompanhar numa despretensiosa "visita monitorada", se não bastar o vasto material fotográfico já publicado neste site.

Enquanto isso, o tempo vai passando, o patrimônio histórico de Poços de Caldas deteriora-se mais e mais, crises explicam mas não justificam a falta de investimentos no acervo, prefeitos, vereadores e conselhos se sucedem, e a história que vamos deixar para as futuras gerações vai ser a do abandono, do desleixo, do desprezo às origens. E quem ousa tocar no  assunto é o "chato".
  
Confira o vídeo com a opinião de Alexandre Garcia clicando aqui.
  

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

O PASSADIÇO COBERTO E A MODERNIZAÇÃO DA THERMAS ANTONIO CARLOS


Da direita para a esquerda a foto acima, de 1900, mostra o Hotel da Empreza, seguido pelo consultório do Dr. Pedro Sanches, o passadiço coberto sobre o Ribeirão de Poços e, ao fundo, o Balneário Pedro Botelho. Esse belíssimo complexo ficava próximo da área onde hoje fica a Fonte Luminosa, no Parque José Affonso Junqueira.
  
Esse e outros conjuntos foram dando lugar a outras construções ao longo de décadas em Poços de Caldas, felizmente alguns sobrevivendo por 80 anos -caso da Thermas Antonio Carlos- ou mais.
  
É o momento de se levantar um debate sobre o quanto o poder público municipal pode ou deve interferir nos patrimônios quase seculares da cidade. Desde 2010 um assunto tem frequentado a mídia local, tendo como ponto de partida a própria área de comunicações da prefeitura: a realização de obras de restauração e modernização da Thermas Antonio Carlos. Em dezembro o site da prefeitura publicou que "a Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais (Codemig) estipulou o preço máximo da execução do projeto em R$ 11,2 milhões". Semana passada a questão foi tema de nova nota oficial.
  
Se por um lado a restauração é necessária, de forma a apagar de vez os vestígios de uma história recente marcada pelo abandono e precariedade (clique aqui e fique horrorizado com as imagens, que me custaram e ainda custam muitas "caras feias" de várias autoridades, uma vez que entrei numa espécie de zona proibida, fotografei e publiquei no Viva Poços o cenário...), por outro é preciso um profundo debate sobre a tal "modernização".
  
Até onde minha vista alcança, estão na "lista de sacrifícios" as banheiras originais inglesas e outras preciosidades de incalculável valor histórico. O que será feito lá? Como são esses projetos de "modernização"? Se já estamos aguardando a liberação de recursos, é óbvio que esses projetos já estão concretizados e não foram amplamente mostrados à população, ou eu não estaria aqui gastando o meu e o seu tempo. Como bem disse um leitor na ocasião em que publiquei as imagens, em 2008, "só falta colocar uns Blindex nas janelas e transformar em outlet...".
  
Transparência é necessária, debate idem. Na cidade das votações secretas, o que efetivamente está planejado para a Thermas? Onde mexerão? O que é a "modernização" que pretendem? As áreas hoje abandonadas do prédio, serão aproveitadas? Como? Essas e muitas outras dúvidas precisam ser levadas à discussão, e que não seja numa dessas capengas audiências públicas em horários impróprios. O assunto é tão misterioso que os R$ 11 milhões de que falam agora eram R$ 8,5 milhões em setembro de 2010, segundo a própria prefeitura, sem dar satisfações à população sobre o aumento de quase 32$ no valor do projeto. 
  
Enquanto a discussão não ganha corpo, padeço pensando que a Thermas pode caminhar para o mesmo destino sorumbático que a prefeitura deu à Estação Fepasa (a qual eu insisto chamar Estação Mogyana, não apenas pelo charme do nome, mas pela origem do espaço): um prédio muito maltradado, com remendos ridículos, calhas arrebentadas, o uso da plataforma como estacionamento e, claro, um blindex na porta. Isso para não dizer que boa parte daquele espaço tombado já foi apropriado por particulares, incluindo muros de um posto de combustível sobre o leito da ferrovia e outras obras que estão acontecendo por lá, sob as vistas (grossas) das autoridades. Ou algém acha que a Thermas chegou ao estrado em que se encontra hoje por acidente?
  
Em suma, Poços de Caldas não é modelo quando se fala de preservação de patrimônio histórico. Quem não concorda tem espaço aberto aqui para provar o contrário. É sim um desafio, tal e qual fiz em 12 de abril de 2010 ao enviar às principais autoridades locais (prefeito, vice-prefeita, secretários de administração, comunicação social, educação, planejamento, obras, turismo e cultura e os 12 vereadores) um pedido pela preservação e transformação em logradouro turístico dos Pilares da Mogyana. Até hoje não obtive um retorno sequer. Nem mesmo um lacônico "recebemos e vamos analisar". Nada. Zero.
 
Clique nas imagens do Memória de Poços de Caldas para ampliá-las.
  

quarta-feira, 11 de janeiro de 2012

O POLYTHEAMA PODERIA TER SOBREVIVIDO - II

Politeama (do grego: poly = vários + théama = espetáculo).
 
"Seria impagável conhecer este lugar preservado", disse o amigo Albert Cagnani ao ler o material publicado anteriormente sobre o Polytheama, que pode ser conferido aqui. Ele tem razão.
    
Confira nas duas imagens abaixo a semelhança dos espaços: a foto antiga, claro, é da plateia do Polytheama de Poços de Caldas; a outra, atual, é do teatro -acredite- Polytheama de Jundiaí, e mostram bem o que a cidade perdeu ao demolir o prédio. 
 
Claro, muito são os motivos e justificativas para cada ato humano, mas hoje está em nossas mãos preservar a história da cidade, ainda que autoridades tentem mudá-la à revelia do Povo. Também não se sabe o que teria acontecido à arquitetura do Polytheama se tivesse sido transformado em Fórum. 
   
Porém, indaga-se: você conhece alguém que deu carta branca para que as banheiras da Thermas Antônio Carlos fosse trocadas por outras "moderninhas"? Sabe de alguém que assinou a ordem para a ocupação desordenada da plataforma da Estação Mogyana? Pois é. São ações das quais podemos nos arrepender no futuro, tal como hoje lamentamos não ter o Polytheama. A vantagem é que hoje tudo tem nome e sobrenome: quem são os responsáveis, quem pagou, quem assinou.
    
Vale destacar uma frase que o jornalista Eduardo Bueno usa em sua série de pequenos programas no History Channel e que será adotada pelo Memória de Poços de Caldas: "Povo que não conhece sua história está condenado a repeti-la".
   
Até quando Poços de Caldas vai repetir esses erros?
   
Clique nas imagens do Memória de Poços de Caldas para ampliá-las.
 
ATUALIZANDO: Para aqueles que sonham com um destino melhor para a Estação Mogyana, continua aberta a petição pública que pede a "Reativação da linha ferroviária de Poços de Caldas e melhorias no bem tombado" -a lista conta hoje com as assinaturas de 682 cidadãos de escol. Comunicados sobre a existência da Petição, apenas cinco dos 35 membros do Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico assinaram, e NENHUM vereador.
   
Se você ainda não assinou e quer deixar seu nome da história daqueles que lutaram pela preservação do Patrimônio Ferroviário de Poços de Caldas, clique aqui.
   

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

PRIMÓRDIOS

Por Hugo Pontes
  
     "Recuso-me a aceitar uma qualificação ou referência como sendo historiador. Não tenho o título. Prefiro, em função do que até agora realizei na área da pesquisa, a designação de memorialista. Dedico-me permanentemente à busca de fatos e registros que possam traduzir em uma boa narrativa histórica de fatos mineiros ou poços-caldenses (principalmente este), mesmo porque recebo muitas sugestões de amigos e das pessoas que me acompanham desde meus primeiros livros sobre histórias de Poços de Caldas.
     Entretanto, o livro que eu gostaria mesmo de escrever seria sobre Francisco Escobar.
     Intelectual, músico, administrador por excelência, Escobar foi prefeito em Poços de Caldas de 1909 a 1918.
     Na sua gestão, Escobar estruturou a cidade para o turismo. Foi o grande prefeito que se voltou para a autêntica vocação da estância.
     Em sua época, trouxe para a cidade verdadeiros artistas-construtores, decoradores, paisagistas e, sobretudo, humanistas como ele o era.
     Em 1911 inaugura os prédios da Prefeitura, do Politeama, do Grande Hotel e do Mercado Municipal, verdadeiras obras da arquitetura local que, ao longo do tempo os govemantes que vieram permitiram que, em grande parte, fosse destruída.
     Convidou para morar na cidade o maestro Guido Rochi, músico da orquestra de Toscanini, que veio fazer apresentações em São Paulo; outros nomes aqui se assentaram e deram grande contribuição para a cultura local.
     Com a infra-estrutura alicerçada, segundo o escritor Jurandir Ferreira, a cidade entre 1920 até 1946, tornou-se um destino turístico sofisticado, uma vez que as pessoas vinham para a "Estação de Cura" e encontravam a diversão que atraía e mantinha o turista por um período igual ou superior a trinta dias.
     Outro aspecto a ser considerado é o fato de que na década dos anos de 1940 acontecia a Segunda Guerra Mundial e o turismo interno tornou-se a melhor opção de todos aqueles que viajavam para a Europa.
     Os estabelecimentos de diversão, por sua vez, para manter os visitantes, traziam atrações artísticas como cantores, mágicos, malabaristas, teatro de revista, musicais, humoristas e toda a sorte de atrações que mantinham a cidade e os cassinos em permanente animação.
     Ao final desse período áureo na opinião de alguns e miserável para outros, com a proibição do jogo pelo governo do presidente Eurico Gaspar Dutra, Poços de Caldas sofreu um processo de atraso econômico acentuado. Mas, a partir dos anos de 1960, busca sua reestruturação econômica na mineração, na indústria, no comércio e nos serviços.
     Hoje, muita coisa há para se fazer uma vez que parte dessa base econômica há alguns anos dá sinais de exaustão e enfraquecimento.
     É preciso pensar alternativas que não seja "trazer indústrias". E essa alternativa está no fortalecimento do turismo, que é a vocação inicial.
     E, ao que tudo indica, precisamos encontrar outro Francisco Escobar, com a inteligência e sensibilidade para repensar Poços de Caldas, sem ficar atrelado aos interesses de grupos e pessoas que só pensam em seus bolsos, já recheados, enquanto a população, em média, ganha mísero salário mínimo".
  
Hugo Pontes é professor, poeta e jornalista.

Artigo publicado em 31 de dezembro de 2010 no Jornal de Poços. Bastante oportuno, levanta a discussão sobre os destinos dados aos patrimônios da cidade, conforme apontado na postagem Prédios Demolidos, que pode ser lida aqui. Abre espaço para um debate importante: a licitação da reforma da Thermas Antonio Carlos, obra que prevê entre outros "a troca de todas as banheiras e construção de uma piscina com água sulfurosa", de acordo com a Prefeitura, orçada em R$ 11,5 milhões.
  
Certamente uma modificação profunda e que, antes de efetivada, deve passar pelo crivo da população. A Thermas Antonio Carlos é um patrimônio do País.
     

quarta-feira, 13 de abril de 2011

POÇOS DE CALDAS, 1966 - PARTE 2

POLÍTICA É DOM QUE VEM DO BERÇO
   
Paixões, segundo Jurandir
A vida política interna, porém, não era tão fácil. Tinha briga entre políticos, a maioria dêstes chefes de famílias tradicionais. No romance histórico "O Céu entre Montanhas", de outro escritor de Poços, Jurandir Ferreira, onde a realidade se confunde com a ficção, uma reunião do conselho termina em duelo a cadeiradas e bengaladas, e tanta gente fica machucada que é preciso requisitar médicos nas cidades vizinhas para que os colegas pudessem ser socorridos.
   
No livro de Jurandir Ferreira, cuja história se passa em Nossa Senhora do Rosário das Águas do Rio Velho de Moçu, até os doentes brigavam, pois formavam multidão disputando um lugar nas nascentes vigiadas por guardas armados de cacetes, a fim de manter a ordem.
   
Em fins de 1909 apareceu um prefeito, Francisco Escobar, que transformou a cidade. Intelectual, pianista, sob sua influência as desavenças foram terminando e as facções políticas se entrelaçaram. Além de tudo, administrador: construiu o prédio da Prefeitura, pontes, o primeiro teatro, o primeiro hotel de luxo, arrumou as estradas da região e pavimentou as ruas com pedras britadas.
      
Com tantos turistas querendo gastar dinheiro, espanta a falta de mendigos nas ruas. Na cidade inteira, em todos os recantos, a gente vê as placas recomendando ao forasteiro que não dê esmolas, mas sim que faça uma visita ao SOS e verifique como se trabalha ali.
   Mendigo de fora tem que voltar para o lugar de onde veio. Os de casa são amparados.
Seu Pedro Vasconcelos o recebe na porta, mostra-lhe os mantimentos à espera dos pobres, os remédios doados, a sala de aulas, com o carinho de quem vive ali há 20 anos, desde a fundação do SOS - Serviço de Obras Sociais. Nesse tempo todo, êle já atendeu mais de 4 mil famílias; muitas delas recuperadas, hoje são colaboradoras do próprio SOS. As dificuldades sempre foram muitas, as contribuições vêm do comércio, que entra com 250 mil por mês, mais 120 mil da Prefeitura. O resto vem do povo, das festas beneficentes.
   
Quem é apanhado na rua pedindo esmola, ou mora em Poços ou veio de fora. Se fôr pobre da casa, o SOS faz uma ficha completa, a família passa a receber semanalmente gêneros, roupa, calçado, remédio; os doentes são encaminhados ao hospital, os sadios ao trabalho. As crianças são matriculadas na escola e devem freqüentar mesmo: cada uma tem o seu cartãozinho que apresenta assinado pela professora, provando que foi às aulas.
   
Pobre de fora, a polícia pega e leva ao SOS, onde seu Pedro alimenta, fornece mais o que fôr possível, depois dá um passe para voltar ao lugar de onde veio. Em Poços não pode ficar.
   
FOTO NA PRAÇA É MONOPÓLIO DE FAMÍLIA
  
Mário está há 30 anos na praça
Nas temporadas, Poços de Caldas trabalha dobrado para atender os turistas. Os cristais somem das prateleiras, os doces, os laticínios; nas ruas, meninos caçam os casais para servir de guia, engraxar sapatos, tirar fotografias; os cavalos e as charretes fazem dezenas de passeios por dia. Mário, o lambe-lambe mais antigo da praça, pode ser chamado em casa até, a qualquer hora de qualquer dia, para fotografar os fregueses conhecidos. Dos 50 anos de vida, passou 30 entre as flôres do jardim, tirando fotografia de duas gerações de turistas. Hoje a praça é dêle. As máquinas velhas de lambe-lambe são quase decorativas, amarradas a uma árvore e ao coreto. Para trabalhar mesmo êle usa modernas Yashikas e Rolleis. Do outro lado do jardim, o outro fotógrafo é seu irmão e sócio. A filial dos dois é Ditinho, sobrinho de Mário, fotografando aos 15 anos tão bem quanto o tio de 50.
A praça dos meninos
Para o pintor da cidade, Nacib Nacklé, temporada é a hora de largar os pincéis e tratar de ser comerciante um pouco. Pode vender até uma dúzia de quadros. Faz 26 anos que está em Poços, onde mantém exposição permanente no Palace. Estudou pela escola impressionista, em Piracicaba. Nos seus 47 anos guarda com orgulho os recortes de jornais anunciando os prêmios que ganhou, em São Paulo, Rio, Piracicaba também. O último não faz muito tempo, foi no Salão Paulista de Belas Artes.
   
Menino pobre, com a caixa de engraxate nas costas, não pode entrar na praça principal. Para não perturbar os turistas, dizem, com sua insistência em pedir: "Quer engraxar?".
   
Muitos dêles são pretinhos, quase todos se chamam Pelé. Vanil dos Santos, por exemplo, 13 anos, terceiro ano do grupo, sete irmãos em casa, todos trabalham. Engraxa, serve de guia e bate fotografias. Engraxando, consegue tirar 30 contos no fim do mês. Se a época é boa, serve de guia e os 30 contos podem sair num dia de sorte. "Engraxar agora não dá muito", diz êle. "Tem mais engraxate que sapato aqui, e os novatos ainda acham de cobrar mais barato."
   
Mauro não diz o sobrenome, só a idade: 11 anos. Faz tudo o que os outros fazem e tanta convivência com casais em lua de mel lhe deu uma idéia própria sôbre o casamento: "Casar não é bom, ser amigos é melhor. Casado a gente é um, amigado a gente é dois." E vai fazendo batucada enquanto engraxa o sapato do freguês.
Os meninos fotografam e puxam as charretinhas.
Qualidade dos meninos de Poços: a discrição. Não ouvir, não ver e não falar, em matéria de casais em lua de mel. Ética profissional.
   
Os cavalos da praça
Quem margear o rio ao lado direito do Palace, não anda dez metros é logo abordado pelos homens e meninos que alugam cavalos e charretes. Para gente grande, animais fortes e bonitos. Para as crianças, pôneis e charretinhas puxadas a carneiro. Os passeios ficam no mínimo em 1.500 cruzeiros, cada.
   
HÁ SETE SÉCULOS FERRO FAZ CRISTAL.
  
Seguso e Ferro têm tradição de 750 anos fabricando cristal de Murano. 
O que a natureza oferece, a cidade aproveita bem. Além do vinho, há laticínios, doces de frutas e, sobretudo, cristais belíssimos. A única fábrica em funcionamento é a Ca d'Oro na avenida João Pinheiro, 1707 (saída para São Paulo). São cristais tipo murano, fabricados por italianos de famílias tradicionais em Veneza, 750 anos trabalhando nisso.
   
Os mestres vidreiros são dois, Ferro e Toso, outro é Seguso, um dos escassos gravadores de cristal do Brasil. Seguso às vêzes passa três dias sentado à máquina, para gravar uma peça. Tem trabalhos expostos na Bélgica, no Canadá e nos Estados Unidos. Para êle, o cristal murano é côr e forma, é o cristal que evolui como evoluem as artes. Nas vitrinas, as peças vão de 30 a 40 mil cruzeiros por exemplar.

Para espantar os males
Nem sempre o negócio é passear, há os que procuram nas águas o que não encontram nos remédios, a cura para doenças reumáticas, da pele, alergias, distúrbios do aparelho digestivo. Poços é especialista nisso, seus institutos, como o Dr. Amarante e Dr. Mário Mourão, se encarregam de dar jeito nas doenças.
   
Os balneários são três, um dêles exclusivo dos hóspedes do Palace. Os outros dois são o Mário Mourão, na praça D. Pedro II, e as Termas Antônio Carlos, junto do Palace. No total, são 178 banheiras de porcelana, que permitem mais de 250 banhos por hora, de água sulfurosa sódica quente. Há ainda inalações sulfurosas, ginástica, ducha-massagem, submarina, ginecológica, intestinal, tudo isso sob assistência médica.
   
Alumínio a dólar
Foi o geólogo Orville Derby quem anotou a existência de rica jazida de bauxita na região. Agora fala-se que a Aluminium Company of America - ALCOA - vai construir uma empresa para produzir o alumínio a partir daquele minério, em Poços de Caldas. A indústria, já denominada Cia. Mineira de Alumínio - ALCOMINAS – investirá 51 milhões de dólares para produzir 25 mil t anuais dentro de 3 anos.
   
VINHO É BOM NO ROTEIRO DAS ÁGUAS

Antigamente os caminhos para Caldas e Andradas se mediam em léguas, 5 à primeira, 7 à segunda. Eram picadas, quando muito se podia ir em carro de boi, as crianças choravam que queriam ir também, no meio da viagem já estavam arrependidas. "Estou com dor de lança", reclamavam, sentindo-se enjoadas. Com tanto sacrifício a viagem só se fazia por muita necessidade, motivo de doença por exemplo. Caldas nascera primeiro e tinha mais recursos.
Nestes tonéis e garrafas está um dos melhores vinhos do país, que o velho Marcon não pode mais provar.
Hoje as estradas têm marco quilométrico, para Caldas 30 quilômetros bem asfaltados; para Andradas 41, de asfalto quase a metade, o resto é terra mas não apresenta problemas. A negócio lá agora é vinho, único assunto que as duas cidades mais velhas entendem mais que Poços.
   
Consta que em 1780 um português chamado Antônio Gomes de Freitas se instalou com sua mulher na região e logo percebeu a semelhança do clima e solo com os das zonas vitivinícolas européias. Plantou as primeiras parreiras e o lugar recebeu o nome de Campos de Caldas.
   
A plantação de uvas com intenção manifesta de fazer vinho deu-se em 1855, em Andradas. O coronel José Francisco de Oliveira plantou meio alqueire de bacelos de Isabela européia, que precisou queimar cinco anos depois, com um prejuízo enorme: quase três contos de réis. Após muito experimentar, chegou à conclusão de que três variedades se davam bem com o clima e o solo: Pirapetinga, Cunninghan e Virgínia. O coronel Oliveira é antepassado do engenheiro-agrônomo José Gabriel de Oliveira, atual chefe da Subestação de Enologia de Andradas.
   
Beber com ciência
Enologia é palavra grega: ciência que trata dos vinhos. A estação de Caldas e a subestação de Andradas, órgãos federais, dão assistência aos vitivinicultores, analisando a uva antes da colheita, indicando o caminho para obter qualidade, "provando" o vinho pronto e fiscalizando os produtos. Os vinhos dali são considerados entre os melhores do país.
   
A produção de Caldas, que engloba vários municípios vizinhos, inclusive Poços de Caldas, passa dos 2 milhões de litros anuais. Caldas entra com 75% do total, Poços 7,6%. Andradas produz mais: média de 6 milhões de litros anuais. As cantinas da região se especializaram também na fabricação da bagaceira, aguardente feita do bagaço de uva, fermentado e destilado.
   
O velho e as uvas
Guerino Marcon é o mais velho de três irmãos que nasceram e viveram em Andradas. O pai, Giovanni Marcon, imigrante italiano, por aqui chegou em 1896, quando Andradas era um mato só, casas de pau-a-pique, uma longe da outra. Começaram plantando café, alqueire e meio de terra. Depois foram aumentando, comprando um pedaço aqui, outro ali, em 1914 resolveram plantar uva e produzir vinho. É o que fazem até hoje, e bem: 10% da produção de Andradas vêm da Sociedade Vitivinícola Marcon. Guerino tem 70 anos, o orgulho de ter um sobrinho médico em São Paulo e o desgôsto de não poder mais provar o vinho que fabrica: sofre de diabetes, que lhe levou um dedo embora por causa de um ferimento de nada; o próprio sobrinho o operou nas Clínicas.

A cantina Piagentini é de parentes dos Marcons, produz vinho Rubronhol e aplica técnicas modernas. Acabam de comprar por 12.000 dólares uma máquina de envelhecer vinho, terceira no Brasil. Outros vinhos famosos de Andradas: Nau Sem Rumo, Isidro Gonçalves, Caves do Resteld, Campino. Na região de Caldas: Sociedade Caldas, Caneca, Velho Marcassa (Poços), Tambasco, Quinta Néctar.
    
Continua.
  
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